estou escrevendo isso enquanto um monstruoso pássaro de aço me engole e me leva pra longe de onde você nasceu e cresceu e foi feliz e triste e aprendeu a viver e a ser você. parece que o ar rarefeito rasga algo dentro de mim a cada quilômetro que o avião cruza, jogando partes minhas pelo caminho.
minha cabeça vai e volta na mesma quilometragem por hora deste pássaro. quero nunca mais voltar, quero esquecer que estive ali, quero voltar o quanto antes, quero me mudar pra lá. nada é verdade agora, e tudo é, ao mesmo tempo.
o que se sabe é: dói ter algo que você quis por tanto por uma tarde de primavera e não saber quando, ou se, terá de novo. é difícil dizer se vale a pena. eu não sei. mas a dor maior é não entender. eu sou apegada a entender, a ter certeza, a saber... só que não há nada a ser entendido. nada é verdade, e tudo é, ao mesmo tempo.
eu quero uma resposta que não existe e não tem nenhuma obrigação de existir.
esta carta mesmo é um ato desesperado de tentar entender algo que só o tempo vai dar sentido. algumas coisas acontecem antes de significarem algo. para a maior parte de tudo nós só criamos um significado quando estamos longe demais pra afetarmos o que acontecia. o distanciamento histórico que nos permite inventar a história, em vez de viver o momento.
escrevo sem saber se um dia vou enviar estas palavras. não sei se elas farão algum sentido para você, já que parece que vivemos coisas tão diferentes. você fica, e talvez perca algo. eu vou embora, e não sobra nada do que aconteceu. o chão que pisamos é seu e está a a algumas horas de distância. para mim, tudo era novo, e nada será meu. me sobram memórias sem testemunha.
talvez essa seja a falta que me atormenta: longe de cada paralelepípedo e cada tijolo e cada árvore e cada gato de rua e cada obra de arte em exposição, eu não tenho ninguém para me dizer que tudo aquilo de fato aconteceu. não posso voltar às esculturas e perguntar: você viu, né? eu não alucinei tudo aquilo. eu estava aqui, ele também.
"tudo aquilo" o quê? eu não sei. nada é verdade, e tudo é, ao mesmo tempo. talvez eu não tenha sentido nada. com sorte, nada do que eu vivi em ... de ... significou alguma coisa, e eu não vou precisar pensar mais naquilo.
estou tentando falar tudo que eu quero num momento em que não há nada a se dizer. "tell you everything by saying nothing".
sinto vontade de te pedir pra me contar, em detalhes, se possível, o que aconteceu. colher os depoimentos e bater as informações. pra tentar recriar as cenas, entender o todo, ter um registro que seja da única testemunha que tenho. mas não vou fazer isso porque não importa. mesmo no momento em que a gente se sente mais profundamente conectado com alguém, no fim, nós estamos sozinhos. o que quer que eu tenha vivido foi diferente do que você viveu. você é testemunha de eventos diferentes, nos quais talvez eu até estivesse presente, mas não estava consciente disso.
porque não estou procurando os eventos concretos. uso o celular com o gps ligado e tirei dezenas de fotos. a google poderia descrever minuciosamente cada passo. mas ninguém nunca vai acessar como você me enxergou naquele dia - exceto você e para quem você porventura conte.
eu queria não ter que criar um segundo elefante na sala, porque eles me sufocam aqui dentro. e é por isso que ainda não sei o que quero: será que essa sala vai crescer o suficiente para comportar um terceiro elefante, caso eu volte a te ver? será que eu quero matar e enterrar este elefante, como sinto ter matado o anterior? será que algum dia nós vamos falar de algum elefante, e vamos conseguir decidir o que fazer com ele? será que algum elefante vai me pisotear, tornando real o meu receio?
não sei, não tenho como saber. a única coisa sob o meu controle é aprender a domesticar elefantes.
com votos de felicidade,
ayo